
Moradores do Complexo da Maré se refrescam com chuveiros e piscinas improvisadas nas ruas da comunidade. A sensação térmica na cidade do Rio de Janeiro voltou a superar os 50 graus Celsius (°C), com a onda de calor que atinge boa parte do Brasil.
Tânia Rêgo/Agência Brasil
Uma combinação de fatores atmosféricos típicos do verão, mas intensificada neste fim de dezembro, explica por que uma ampla faixa do Centro-Sul do Brasil entrou em um período prolongado de calor extremo.
‼️Desde o início da semana, grandes áreas do Sudeste, parte do Sul e do Centro-Oeste vêm registrando temperaturas muito acima do padrão esperado para esta época do ano, em um cenário que reúne persistência, recordes e riscos à saúde.
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O fenômeno é classificado pelos meteorologistas como onda de calor — quando as temperaturas ficam significativamente acima da média por vários dias consecutivos.
No caso atual, o episódio começou a se configurar na segunda-feira (22) e ganhou força ao longo da semana, levando o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) a emitir um aviso ‘alerta laranja’, com perigo válido até a noite desta sexta-feira (26).
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O alerta abrange oito Estados e indica que os termômetros devem permanecer cerca de 5 °C acima da média climatológica, com potencial impacto direto sobre a saúde da população.
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O que chama atenção neste episódio não é apenas o calor pontual de uma tarde específica, mas a sua continuidade.
Diferentemente de picos isolados, comuns no verão, a atual configuração atmosférica favorece dias sucessivos de temperaturas altas, inclusive durante a noite e a madrugada, o que dificulta a recuperação do corpo humano e aumenta o desconforto térmico.
Em São Paulo, a capital registrou 35,9 °C no dia 25 de dezembro — a maior temperatura já observada para o mês desde o início das medições oficiais. O recorde anterior, de 35,6 °C, havia sido registrado em dezembro de 1998.
No Rio de Janeiro, os termômetros chegaram a 41 °C, levando a prefeitura a acionar o nível 3 de calor em uma escala que vai até 5, usada para indicar a gravidade e a persistência das altas temperaturas.
Mas o fenômeno não se limita às capitais nem a áreas urbanas específicas. O calor intenso se espalha por extensas regiões do interior do Sudeste, do Sul e do Centro-Oeste, afetando áreas agrícolas, zonas metropolitanas e cidades de médio porte.
Em muitas delas, o calor é classificado como severo ou extremo, segundo autoridades de saúde, sobretudo quando combinado com baixa umidade do ar.
🤔 Por que essa onda de calor está acontecendo agora
São Paulo bateu recorde de calor: 35,9 graus
De forma geral, meteorologistas consideram que uma onda de calor ocorre quando as temperaturas ficam pelo menos 5 °C acima da média por um período mínimo de cinco dias consecutivos.
O Inmet adota um critério semelhante, mas considera a elevação em relação à média mensal, independentemente do número exato de dias, desde que o desvio seja significativo.
No episódio atual, os dois critérios são atendidos em várias regiões: as temperaturas estão persistentemente elevadas e se mantêm bem acima do padrão climatológico de dezembro. Esse caráter prolongado é o principal fator de preocupação para autoridades de saúde e defesa civil.
A explicação central da onda de calor atual está na atuação de uma massa de ar quente e seco que se estabeleceu sobre o Centro-Sul do país. Esse sistema é reforçado pela Alta Subtropical do Atlântico Sul, um grande sistema de alta pressão que, neste momento, funciona como um bloqueio atmosférico.
Na prática, ele impede o avanço de frentes frias e de áreas de chuva mais organizadas, mantendo o ar quente “preso” sobre a região por vários dias.
Com menos nuvens e pouca circulação de sistemas de instabilidade, o solo recebe mais radiação solar durante o dia e perde menos calor à noite. O resultado são tardes muito quentes e madrugadas igualmente abafadas, um padrão clássico de onda de calor.
Esse tipo de bloqueio também ajuda a explicar por que as chuvas, quando ocorrem, são isoladas e de curta duração, insuficientes para aliviar o calor de forma mais ampla.
Outro ponto importante é o contexto do início do verão. Dezembro já é, historicamente, um mês quente em grande parte do Brasil. Quando um bloqueio atmosférico se instala nesse período, ele tende a potencializar condições que já seriam naturalmente favoráveis ao calor, elevando ainda mais as temperaturas e aumentando a chance de recordes.
Quais regiões são mais afetadas
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O calor mais intenso se concentra em grande parte do Sudeste, mas também avança sobre áreas do Sul e do Centro-Oeste.
São Paulo e Rio de Janeiro principalmente, mas Minas Gerais e Espírito Santo estão entre os estados mais afetados, com temperaturas muito acima da média de dezembro.
O fenômeno também alcança Santa Catarina e Paraná, no Sul, além de Mato Grosso do Sul e áreas do interior de Goiás, ampliando a faixa do Centro-Sul sob influência da onda de calor.
No Sudeste, o aquecimento é mais forte em regiões afastadas do litoral, onde a influência da brisa marítima é menor.
No Centro-Oeste, o padrão é de calor persistente com pancadas isoladas de chuva, típicas de dias muito quentes e abafados.
Já no Sul, especialmente entre Paraná e Santa Catarina, o período mais crítico era o o Natal, com expectativa de alívio gradual após a retomada das chuvas.
No Norte e no Nordeste, que não estão sob influência direta dessa onda de calor, o calor mais intenso se concentra no interior, enquanto áreas litorâneas seguem relativamente mais amenas graças à ventilação oceânica. Ainda assim, há risco de temporais, principalmente na região Norte.
Riscos à saúde e o que esperar nos próximos dias
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Reprodução/TV Globo
O Inmet alerta que ondas de calor aumentam o risco de desidratação, exaustão térmica e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias. Sensações de cansaço, lentidão, tontura e mal-estar podem ser sinais de que o corpo está tendo dificuldade para lidar com o excesso de calor, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.
A recomendação das autoridades é reforçar a hidratação, evitar exposição prolongada ao sol nos horários mais quentes do dia e buscar ambientes ventilados sempre que possível. Em caso de sintomas mais intensos, a orientação é procurar atendimento médico ou acionar a Defesa Civil.
A tendência, segundo as previsões, é que o calor persista ao menos até o fim da semana, com possibilidade de manutenção das temperaturas elevadas até o domingo (28).
A partir daí, mudanças graduais no padrão atmosférico podem permitir o avanço de sistemas de chuva mais organizados, ajudando a reduzir o calor em parte do Centro-Sul. Até lá, o país segue sob um cenário típico de verão extremo, cada vez mais frequente em um clima que vem se tornando mais quente e mais propenso a eventos intensos.
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