Brasil sofre impactos da guerra no Oriente Médio


Do gás de cozinha ao óleo de soja, famílias brasileiras tendem a sentir no bolso os efeitos dos conflitos com alta nos combustíveis e alimentos

Produção de Soja no Brasil © Werner Rudhart / Greenpeace
Soja em um silo em Itacoatiara, Amazonas.

© Werner Rudhart / Greenpeace

Há quase três meses, os EUA e Israel deram início a uma guerra contra o Irã que escalou para outros países do Oriente Médio. Já são milhares de mortes e milhões de pessoas deslocadas à força, além de restrições no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo global, impactando as cotações de combustíveis fósseis e encarecendo insumos como diesel e fertilizantes

Os impactos da guerra no Oriente Médio ultrapassam as zonas de conflito, gerando efeitos em cascata sobre transporte, energia e agricultura. No Brasil, uma das maiores preocupações é o aumento no preço dos alimentos, já que o agronegócio depende da importação de fertilizantes à base de fósseis, além do uso de diesel para frete rodoviário.

“Os conflitos geopolíticos em curso estão ceifando milhares de vidas e aprofundando desigualdades em todo o mundo”, explica Leilane Reis, coordenadora de Justiça Climática do Greenpeace Brasil. “O Brasil sente esse impacto diretamente, afinal nossa dependência de combustíveis fósseis nos deixa reféns de crises que não controlamos e que custam bilhões aos cofres públicos. Precisamos ir além de medidas emergenciais e investir em soberania alimentar e energética de forma segura e local. Não é só uma questão ambiental, é responsabilidade econômica e social.”  

Ativistas do Greenpeace Espanha desdobram uma faixa gigante com a mensagem “NÃO À GUERRA” na Puerta del Sol, em Madri, um dos locais mais emblemáticos da cidade, para enviar uma mensagem clara aos líderes mundiais: a guerra nunca é a solução. É hora de escolher a paz.
Ativistas do Greenpeace Espanha abrem faixa gigante com a frase “NÃO À GUERRA” na Puerta del Sol, em Madri, para enviar uma mensagem aos líderes mundiais: a guerra nunca é solução, é hora de escolher a paz.

© Greenpeace / Pablo Blazquez

Impactos da guerra no Brasil: fertilizantes, diesel e o preço da comida

Os efeitos da guerra no Oriente Médio já aparecem no dia a dia das famílias brasileiras e tendem a se intensificar nos próximos meses, especialmente na compra de fertilizantes para a nova safra. O Brasil importa cerca de 87% dos fertilizantes que consome, aproximadamente 45 milhões de toneladas por ano. A maioria dos insumos são NPK (nitrogênio, fósforo e potássio), no caso dos nitrogenados, como a ureia, países do Oriente Médio têm participação relevante.

Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da USP, o óleo de soja registrou alta em março, impulsionada pela demanda por biodiesel. Milho, arroz, feijão e açúcar são impactados pelo encarecimento dos fertilizantes, enquanto carnes e ovos sofrem com o aumento do custo da ração e do transporte. 

O fluxo de caminhões neste período do ano já é maior, o que amplia a pressão sobre os preços dos alimentos. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam alta no diesel e análises do Cepea/USP apontam que o frete pode subir mais de 50% em comparação anual.

Relação direta guerra e preço da comida
A produção de fertilizantes nitrogenados, o tipo mais usado no Brasil e no mundo, depende diretamente do gás natural, conectando o setor agrícola atual à cadeia de combustíveis fósseis. O diesel (usado nos maquinários e no transporte) impacta o custo do plantio, da colheita e do frete. Resultado: alimentos mais caros para a população. 

Reduzir a dependência de combustíveis fósseis implica em fortalecer práticas locais anteriores à industrialização, como rotação de culturas e uso de biofertilizantes naturais (como esterco e chorume), técnicas também presentes na agricultura de base ecológica, a agroecologia. Na agricultura brasileira, o uso de fertilizantes nitrogenados é uma das principais agravantes da crise climática, respondendo por 20% das emissões do setor (SEEG, 2024).

Medidas de contenção do governo federal

Diante da pressão sobre os preços, o governo brasileiro adotou medidas emergenciais para conter os impactos na cadeia de combustíveis fósseis. As Medidas Provisórias 1340 e 1349, publicadas em março e abril, mobilizam cerca de R$ 40 bilhões em ações como subsídios ao gás de cozinha (GLP) e fiscalização de preços abusivos em postos de combustíveis.

São iniciativas que ajudam a amortecer o impacto imediato sobre as famílias, especialmente as de baixa renda. Mas não enfrentam a raiz do problema: a forte dependência brasileira de combustíveis e insumos fósseis.

Cessar-fogo no Oriente Médio e Soluções Locais

O frágil cessar-fogo no Irã, previsto até 21 de abril, não interrompeu a guerra no Oriente Médio: o Líbano foi bombardeado com 100 mísseis em 10 minutos por Israel e o Estreito de Ormuz segue sob restrição. 

Além de ajuda humanitária e pressões diplomáticas, precisamos cobrar de nossos governantes uma economia voltada à paz, baseada em modelos descentralizados e seguros de geração de energia e alimentos. Esse caminho exige mais investimentos na produção ecológica e na redução gradual de combustíveis fósseis. A transição passa pelo fortalecimento de fontes renováveis, como a solar, e pela expansão de bioinsumos, com apoio direto à agricultura familiar, povos indígenas e comunidades tradicionais.

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