Para quem serve o Dia de Conscientização das Mudanças Climáticas?


Quando parte da população tem menos condições de se proteger e se recuperar após desastres climáticos, isso é resultado de escolhas políticas

Canoas, Rio Grande do Sul, completamente tomado pelas águas, em 2024.

© Tuane Fernandes / Greenpeace

Hoje é o Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, e para falar de crise climática no Brasil é preciso falar de desigualdade.

Há quem durma ao som da chuva. E há quem sofra com as enchentes.

A frase do jornalista e ativista Mateus Fernandes resume bem uma das faces mais injustas da crise climática no país: a chuva não cai da mesma forma para todo mundo.

Uma pesquisa da Teto Brasil que traz à luz o cotidiano de territórios que não estão no mapa das políticas públicas, mostra que 86% das favelas e comunidades no país enfrentaram ao menos um evento climático extremo no último ano. E quando a chuva ou o calor extremo chegam, os danos se ampliam: 70% desses territórios não possuem abrigos de emergência, 60% não contam com obras de contenção e 70% não têm sistemas de drenagem.

E isso não acontece por acaso. A gravidade dos impactos da crise climática também reflete escolhas políticas sobre quem tem acesso a infraestrutura, proteção e políticas públicas e quem não tem.

Nos primeiros meses de 2026, cidades como Juiz de Fora e Ubá (MG), Paraty (RJ) e outros municípios do estado, e o litoral paulista voltaram a enfrentar chuvas intensas, enchentes e grandes perdas para a população. Só em Juiz de Fora e Ubá, mais de 64 mortes já foram confirmadas na região até o fechamento deste texto.

Em março de 2024, o Greenpeace Brasil entregou o abaixo-assinado “Basta de Tragédias” à Secretária Nacional de Mudanças do Clima, Ana Toni, no Ministério do Meio Ambiente (MMA), em Brasília. Com cerca de 16 mil assinaturas, o documento levou as vozes de milhares de brasileiros que pedem por ações que adaptem as cidades e se antecipem às tragédias climáticas.

© Matheus Alves / Greenpeace

Quando gestores públicos deixam de investir em prevenção, planejamento urbano e infraestrutura, quem paga a conta mais cara são sempre as mesmas pessoas. Para moradores de periferias, onde falta moradia segura, drenagem adequada e políticas públicas que garantam uma vida digna, uma chuva forte pode significar perder tudo.

As consequências vão muito além das ruas alagadas. Dias sem energia, transporte interrompido ou bairros isolados significam renda zerada para milhões de trabalhadores informais. Móveis destruídos, documentos perdidos e a busca por abrigo temporário geram endividamento imediato. E, junto com tudo isso, cresce o medo constante de que a próxima chuva traga novas perdas.

Ruas alagadas no Bairro Ipanema, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

© Tuane Fernandes / Greenpeace

Imagine essa situação: a chuva alaga sua rua e você simplesmente não consegue sair de casa para trabalhar. No Brasil, desastres climáticos não aparecem na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) como justificativa automática para faltar ao serviço. Na prática, o trabalhador pode ter o salário descontado justamente quando mais precisa de dinheiro para lidar com os prejuízos.

Isso é justo?

A realidade de quem perde a casa também mostra como a recuperação pode ser lenta e desigual. Mais de 15 anos depois das chuvas em 2011 na Região Serrana do Rio de Janeiro, quando mais de 900 pessoas morreram, famílias que perderam tudo em Petrópolis ainda recebem R$ 500 de aluguel social(!), valor que nunca foi reajustado e hoje não cobre nem os aluguéis mais baratos da cidade.

Sem proteção adequada, a crise climática vira um ciclo de insegurança, endividamento e recomeços forçados.

Por isso, a adaptação climática precisa ser prioridade, não apenas em obras pontuais, mas como uma política integrada de moradia digna, proteção social, geração de renda e planejamento urbano. Adaptar as cidades é proteger vidas.

Evento de lançamento do “Corre de Quebrada”, projeto do Greenpeace Brasil que valoriza a cultura de rua na luta por justiça climática. As rimas pesadas mostraram que falar de clima, quebrada e da mudança que a gente precisa tem tudo a ver com a cultura de quem que vive, sente, rima e resiste.

© Luan Braz / Greenpeace

Nesse contexto, iniciativas como o Corre de Quebrada, projeto do Greenpeace Brasil, ganham ainda mais importância. Quem vive nas periferias conhece os impactos da crise climática e também constrói respostas todos os dias. A mobilização por mudança já existe nas diversas formas de organização popular que transformam a vivência da quebrada em luta por direitos. O que falta são políticas públicas que reconheçam esse conhecimento, o financiem e o incorporem às decisões. Sem essa escuta, nenhuma política pública será eficaz.

Se a injustiça é estrutural, a resposta precisa ser coletiva. E enfrentar a crise do clima passa, necessariamente, por construir cidades mais justas, preparadas e capazes de proteger quem sempre esteve mais exposto aos riscos.

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