Líderes A’uwe Xavante se reúnem para discutir os impactos socioambientais de grandes obras. Foto: Missão Salesiana no Mato Grosso (MSMT)
Por Adi Spezia, da Assessoria de Comunicação do Cimi
Reunido em assembleia, o povo A’uwẽ Xavante denunciou o avanço desenfreado de grandes empreendimentos e obras de infraestrutura no entorno de territórios sagrados. O evento ocorreu entre os dias 5 e 7 de março de 2026, na Aldeia Wairenê, na Terra Indígena Parabubure, em Campinápolis (MT).
A assembleia, organizada pela Associação Xavante Warã, reuniu cerca de 40 lideranças de nove terras indígenas com o objetivo de discutir os impactos socioambientais de grandes obras de infraestrutura que ameaçam o território tradicional do Cerrado, chamado pelos A’uwẽ de “Ró”.
“O Ró é o corpo do povo Xavante. Quando ferem a terra com grandes obras sem o nosso consentimento, ferem o coração de cada A’uwẽ”
“O Ró é o corpo do povo Xavante. Quando ferem a terra com grandes obras sem o nosso consentimento, ferem o coração de cada A’uwẽ”, destacaram as lideranças em carta aberta de repúdio do povo A’uwẽ Xavante contra a construção da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (EF-354/FICO).
O território Xavante é atravessado pela construção da EF-354/FICO e por rodovias federais e estaduais, como a BR-080. Também é impactado por hidrelétricas e pela hidrovia ao longo do Rio das Mortes, rio sagrado que delimita as terras A’uwẽ. A FICO e outros empreendimentos e projetos de infraestrutura planejados representam uma ameaça existencial ao povo.
“FICO afetará os A’uwẽ, cerca de 25 mil pessoas que vivem em onze terras indígenas fragmentadas dentro do território tradicional A’uwẽ, no Mato Grosso”
Segundo levantamento da Sociedade de Antropologia das Terras Baixas da América do Sul (SALSA – Society for the Anthropology of Lowland South America), “a FICO afetará os A’uwẽ, cerca de 25 mil pessoas que vivem em onze terras indígenas fragmentadas dentro do território tradicional A’uwẽ, no leste do estado de Mato Grosso”. O estudo aponta ainda que o empreendimento poderá atingir 24 terras indígenas na Amazônia Legal — 23 em Mato Grosso e uma em Rondônia.
Segundo os indígenas, não houve Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) antes da implementação das obras, conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trata-se de um direito dos povos, e qualquer projeto deve respeitar essa Convenção, assegura José Alves de Oliveira, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e representante da Missão Salesiana.
“Lideranças indígenas relatam que há pressões e tentativas de coação”
Líderes A’uwe Xavante se reúnem para discutir os impactos socioambientais de grandes obras. Foto: Missão Salesiana no Mato Grosso (MSMT)
Em fevereiro deste ano, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) denunciou irregularidades no processo de consulta da EF-354/FICO. “Lideranças indígenas relatam que há pressões e tentativas de coação, inclusive com discursos de que a recusa ao empreendimento implicaria perda de recursos de mitigação e compensação, o que configura vício de consentimento no processo de consulta.”
Segundo relatos à organização, o processo de consulta não tem sido transparente nem plenamente participativo. “O processo tem sido conduzido sob chantagens indiretas, sem estrutura adequada para participação ampla e com dificuldades deliberadas de comunicação entre territórios fragmentados”, aponta a organização indígena.
“O processo tem sido conduzido sob chantagens indiretas, sem estrutura adequada para participação ampla e com dificuldades de comunicação”
Entre os impactos previstos pelo traçado da ferrovia e por outras obras de infraestrutura estão o desmatamento, alterações nos regimes hídricos, processos erosivos e o aumento da pressão fundiária, o que leva ao agravamento dos conflitos e das vulnerabilidades já existentes.
Para a Coiab, “compensações financeiras não recompõem perdas territoriais, degradação ambiental ou danos culturais. Problemas como insegurança alimentar, invasões por madeireiros e fragilização da organização comunitária tendem a se intensificar com grandes empreendimentos, especialmente quando conduzidos sem respeito pleno aos direitos coletivos”.
“Compensações financeiras não recompõem perdas territoriais, degradação ambiental ou danos culturais”
A avaliação da organização indígena vai ao encontro do levantamento realizado pela SALSA, que aponta que os “indicadores de saúde entre os A’uwẽ já revelam impactos severamente negativos — incluindo alta mortalidade infantil e doenças crônicas — relacionados à restrição territorial, contaminação ambiental e mudanças alimentares”.
É nesse contexto que as lideranças A’uwẽ Xavante, reunidas em assembleia, manifestam publicamente “nosso profundo repúdio e preocupação” com o avanço desenfreado de grandes empreendimentos e obras de infraestrutura no território e no entorno das áreas indígenas.
“Outra preocupação dos A’uwẽ Xavante é a proximidade do traçado da ferrovia de aldeias antigas, cemitérios e locais atuais de coletas”
Líderes A’uwe Xavante se reúnem para discutir os impactos socioambientais de grandes obras. Foto: Missão Salesiana no Mato Grosso (MSMT)
No documento, as lideranças cobram o direito de serem consultadas sobre qualquer projeto ou ação que impacte seu “Ró”. “Não somos apenas espectadores dos processos de licenciamento; somos os guardiões milenares desta terra”, afirmam.
No início do mês, uma delegação de 16 lideranças A’uwẽ Xavante, de diversas comunidades, esteve em Brasília para cobrar a demarcação da Terra Indígena Areões e a continuidade dos processos de revisão de limites das áreas do povo. Também denunciaram os impactos de grandes empreendimentos ferroviários, a falta de consulta livre, prévia e informada e a pressão de setores do agronegócio. Na ocasião, os indígenas foram enfáticos: “A gente quer a demarcação do nosso território e não ferrovias”.
“A gente quer a demarcação do nosso território e não ferrovias”
Outra reivindicação dos indígenas é que “o licenciamento de grandes obras não pode ser visto de forma isolada”, pois a combinação de rodovias, hidrelétricas e do avanço da soja está “sufocando” os povos e a biodiversidade do Cerrado e da Amazônia, biomas de grande importância não apenas para os povos tradicionais.
Outra preocupação dos A’uwẽ Xavante é a proximidade do traçado da ferrovia de aldeias antigas, cemitérios e locais atuais de coleta de recursos naturais essenciais para a vida nas aldeias e para a ritualidade — aspectos que teriam sido “ignorados nos procedimentos de licenciamento da estrada de ferro”, aponta a Nota Técnica sobre as afetações da FICO/EF-354 sobre os direitos territoriais do povo A’uwẽ Xavante, da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), divulgada em agosto de 2025.
“Não aceitaremos que o ‘progresso’ econômico seja construído sobre o apagamento da nossa cultura e a degradação do nosso meio ambiente. Permaneceremos em vigilância constante e utilizaremos todos os meios legais e tradicionais para proteger o que nos pertence por direito originário”, conclui o documento assinado pelas lideranças da TI Parabubure e representantes das nove terras indígenas Xavante de Mato Grosso.
“Não aceitaremos que o ‘progresso’ econômico seja construído sobre o apagamento da nossa cultura e a degradação do nosso meio ambiente”






